Bioatria, Trabalho e Produção de Saúde: uma leitura para a contemporaneidade
Atualizado: 5 de jun.

Por Débora de Mello e Souza e Roberta Gonzalez Caceres
A compreensão moderna do trabalho foi amplamente influenciada, ao longo dos últimos séculos, pelas lógicas econômica, industrial e tecnológica. Nessa perspectiva, o trabalho tende a ser reduzido à produção de bens, à geração de renda e ao desempenho de funções necessárias à manutenção dos sistemas produtivos. Embora essa dimensão seja inegavelmente importante, ela não esgota o significado existencial do trabalho humano.
Em nossos estudos sobre Trabalho e Produção de Saúde na Bioatria, partimos de uma orientação fenomenológica-existencial, alinhada ao trabalho de Jacob Levy Moreno e dialogamos com autores contemporâneos, mergulhados no momento atual e problematizando os impactos das noções hegemônicas de trabalho para a humanidade.
Iniciando pelo resgate da obra Ser e Tempo, escrita por Martin Heidegger (2009), um dos filósofos mais lidos na tradição da fenomenologia existencial, podemos provocar uma compreensão sobre o conceito de “trabalho” distinta da visão centrada apenas na produção e acumulação de bens, principalmente financeiros. Para o filósofo, o ser humano não é uma entidade pronta e acabada, mas um ser de possibilidades. O Dasein, termo utilizado por Heidegger para designar a existência humana, caracteriza-se por projetar-se continuamente em direção ao futuro. A existência possui uma estrutura fundamental de projeto (Entwurf), pela qual cada pessoa se compreende a partir das possibilidades que pode vir a realizar. O ser humano não apenas executa atividades, ele existe a partir de projetos e constrói sentidos por meio deles.
Sob essa perspectiva, o trabalho passa a ser compreendido como uma expressão da condição projetiva da existência. Significa a possibilidade de transformar o mundo, ao mesmo tempo que somos transformados por ele. O trabalho não é visto como mera ocupação alienada e imposta por estruturas de poder, com escalas exaustivas. Não se trabalha apenas para produzir algo, trabalha-se para constituir modos de ser.
Já Hannah Arendt (2024), filósofa existencialista, de forma mais concreta, desafia a tendência da centralidade do trabalho. Em sua obra A condição humana, Arendt distingue três atividades fundamentais da vida ativa: o trabalho (labor), a obra (work) e a ação (action). Nesta distinção, ela possibilita olharmos para três dimensões: o trabalho que corresponde às atividades necessárias para a manutenção da vida biológica e caracteriza-se por seu caráter cíclico e incessante, com produtos que são consumidos e precisam ser continuamente reproduzidos. A obra que se refere à construção de um mundo relativamente durável de objetos, instituições e culturas, enquanto a ação diz respeito à capacidade humana de iniciar algo novo em conjunto com outros, constituindo o fundamento da vida política. Para Arendt, a modernidade elevou o trabalho à posição de atividade dominante, reduzindo progressivamente os espaços da obra e da ação. Com isso, o ser humano passou a ser definido prioritariamente por sua função produtiva, correndo o risco de empobrecer sua experiência existencial e política. Sua crítica não se dirige ao trabalho em si, mas à transformação do trabalho em medida única de valor da vida humana, questão que permanece central nas sociedades contemporâneas.
Essa compreensão dialoga com as contribuições de Jacob Levy Moreno (1992-1994), autor que criou o termo Bioatria, no livro “Quem Sobreviverá ?” e direciona seu método para a criatividade via Ação, que podemos assumir aqui em linha com as ideias e conceitos de Hanna Arendt.
Ao enfatizar a espontaneidade, a criatividade e a construção de papéis sociais, Moreno entende a saúde como a capacidade de responder criativamente às situações da vida. O trabalho, enquanto ação, quando acontece a partir de escolhas autênticas e de maneira intencional, seria o campo existencial que possibilitaria um dos principais cenários nos quais essa criatividade pode manifestar-se, favorecendo a construção de vínculos, o reconhecimento mútuo e a participação comunitária. No entanto, a lógica industrial que se impôs a partir do século XIX, a violência acumulativa de capital proveniente da perspectiva hegemônica da dominância financeira do século XX, assim como, a aceleração de conglomerados tecnológicos que produziram as Inteligências Artificiais do Século XXI, ocupam uma agenda que deixa nebulosa a forma com que as relações com o trabalho se estabelecerão daqui para frente.
Em Quem Sobreviverá?, Jacob Levy Moreno também desenvolve uma crítica contundente às formas de organização social que reduzem os seres humanos a números, categorias estatísticas e unidades econômicas. Como ponto de partida, a Bioatria propõe uma nova compreensão das relações, com uma perspectiva crítica aos pressupostos herdados da escola econômica fundada por Thomas Robert Malthus (1766 –1834).
Para Moreno, a lógica malthusiana parte da ideia de que a população tende a crescer mais rapidamente do que os recursos disponíveis, tornando inevitáveis a competição, a escassez e a exclusão. Essa visão produz uma sociedade organizada a partir do medo da insuficiência e da necessidade de controlar os indivíduos, em vez de desenvolver suas potencialidades criativas. Quando o ser humano passa a ser visto principalmente como um problema demográfico ou econômico, perde-se de vista sua capacidade de criar novas formas de convivência, produzir riqueza social e transformar coletivamente as condições de existência.
Moreno argumentava que essa perspectiva contribuiu para o surgimento de instituições altamente burocratizadas e centralizadas, nas quais as pessoas são classificadas, distribuídas e administradas como objetos. O resultado é uma progressiva desumanização da vida social. A questão fundamental deixa de ser "quem é esta pessoa?" ou "quais relações ela pode criar?" e passa a ser "onde ela se encaixa na estrutura?" ou "qual sua utilidade para o sistema?".
Nesse contexto, Moreno identificava um fenômeno que poderia ser chamado de "robotização da humanidade". Escrevendo nas primeiras décadas do século XX, muito antes da revolução digital contemporânea, ele observava que a sociedade industrial tendia a transformar indivíduos em executores de funções padronizadas. O trabalhador, o estudante, o paciente e até mesmo o cidadão passavam a ser moldados por papéis rígidos e previsíveis. A espontaneidade, conceito central em sua obra, era gradualmente substituída pela repetição mecânica de comportamentos socialmente prescritos, ou como ele mesmo denominava “conservas culturais”.
Para Moreno, o problema não estava apenas nas máquinas, mas na mentalidade que as acompanhava. Uma sociedade fundada sobre a crença de escassez permanente, diferenças abismais entre classes e sobre o controle populacional autoritário, tende a reproduzir relações humanas mecânicas. As pessoas tornam-se peças intercambiáveis de um grande aparato administrativo. A criatividade, a capacidade de encontro e a produção de novas respostas para novos problemas são sacrificadas em favor da eficiência e da previsibilidade.
Sua crítica adquire especial relevância quando observamos os desdobramentos históricos do século XX. Muitas políticas de segregação social, projetos eugênicos, mecanismos de controle populacional e modelos produtivos altamente alienantes encontraram justificativas em interpretações derivadas, direta ou indiretamente, da lógica malthusiana da escassez. Embora Moreno não atribuísse todos esses fenômenos exclusivamente a Malthus, ele via nessa matriz de pensamento uma das raízes de uma civilização que passou a administrar vidas em massa, frequentemente ignorando a singularidade das pessoas.
Como contraponto, Moreno propunha uma visão radicalmente diferente da sociedade. Em vez de partir da escassez, ele partia da criatividade humana. Em vez de enxergar populações como problemas a serem administrados, ele via redes de relações capazes de gerar soluções inéditas. Em vez da robotização, ele defendia a espontaneidade. Em vez da adaptação passiva às estruturas existentes, propunha a coparticipação na criação do mundo social.
Sob essa perspectiva, a verdadeira riqueza de uma sociedade não estaria apenas em seus recursos materiais, mas em sua capacidade de favorecer encontros autênticos, relações recíprocas e processos criativos coletivos. A crítica moreniana ao malthusianismo é, portanto, mais do que uma crítica econômica: é uma defesa da dignidade criadora do ser humano contra todas as formas de organização social que o reduzem a um número, uma função ou uma engrenagem de uma máquina social.
Ao nos direcionarmos como pesquisadores que continuam o legado sobre a Bioatria, buscamos novos intercessores pós-morenianos que constituem um pensar mais aproximado da complexidade contemporânea. Encontramos em Gilles Deleuze e Félix Guattari uma ampliação para essa discussão. Para esses autores, a produção não se restringe ao campo econômico. A própria vida é produtiva. É a esta ideia que nos referimos quando utilizamos a expressão “produção de saúde”.
Relações, afetos, desejos, conhecimentos e formas de convivência constituem processos permanentes de produção. Nessa perspectiva, trabalhar não significa apenas produzir mercadorias, mas participar da produção de subjetividades, de territórios existenciais e de mundos compartilhados.
Essa compreensão encontra profunda ressonância na epistemologia bioátrica, com a qual temos trabalhado. Para nós, os projetos em Bioatria constituem dispositivos de produção de vida, articulando saúde, participação comunitária, cuidado e transformação social. O projeto deixa de ser uma ferramenta técnica de planejamento para tornar-se um espaço de produção de encontros e de fortalecimento das capacidades coletivas de existir. O trabalho, quando compreendido como participação em projetos de vida e de comunidade, converte-se em uma prática de produção de saúde.
Na perspectiva da Bioatria, trabalho e projeto não são apenas estruturas de execução, produtividade ou entrega: são campos vivos de relação, criação e produção de saúde. Inspirada pela noção de rizoma de Deleuze e Guattari (2012).
Via Bioatria, compreendemos que a transformação não acontece de forma linear, hierárquica ou isolada, mas por conexões múltiplas entre sujeitos, territórios, organizações, afetos, saberes e práticas. Nesse sentido, um projeto bioátrico não nasce apenas para responder a uma demanda institucional, mas para ativar um campo de corresponsabilidade: pesquisar o que pulsa no sistema, articular vínculos, compartilhar sentidos e cocriar caminhos possíveis. Se o rizoma rompe com a ideia de raiz única e crescimento vertical, a produção de saúde também desloca o trabalho da lógica do desempenho individual para uma ecologia relacional, na qual o cuidado concomitante das pessoas, das relações, das comunidades e do ambiente passa a ser parte inseparável de qualquer agenda de inovação, sustentabilidade e futuro.
Na era tecnológica em que vivemos, o conceito de rizoma ganha uma ambiguidade fundamental. Em Deleuze e Guattari, o rizoma rompe com a lógica da árvore: não há raiz única, centro fixo ou hierarquia linear, mas multiplicidade, conexões, fluxos, desvios e agenciamentos. Essa imagem ajuda a pensar formas mais vivas, distribuídas e relacionais de produzir conhecimento, trabalho e saúde. Neste sentido, o capitalismo contemporâneo também se tornou rizomático: opera em rede, expande-se por conexões invisíveis, atravessa territórios físicos e digitais, captura desejos, dados, afetos, hábitos de consumo e discursos de sustentabilidade, muitas vezes transformando até a natureza em produto e o cuidado em mercadoria. Nesse contexto, as tecnologias digitais, as plataformas, os algoritmos e as redes sociais intensificam essa lógica: tudo se conecta, circula e se atualiza em tempo real, mas nem toda conexão produz vínculo, presença ou saúde. Para a Bioatria, portanto, o desafio não é simplesmente celebrar a conectividade, mas perguntar: que tipo de rede estamos produzindo? A serviço de quais formas de vida, de trabalho e de futuro? Um projeto bioátrico busca deslocar o rizoma da captura mercadológica para uma ecologia relacional, na qual tecnologia, trabalho, sustentabilidade e inovação possam ser reorientados para a produção de saúde, corresponsabilidade e regeneração dos vínculos entre pessoas, organizações, comunidades e ambiente.
Essa visão dialoga, ainda, com a importante contribuição do pensador indígena brasileiro Ailton Krenak (2020), que argumenta que a separação entre humanidade, trabalho e natureza constitui uma das bases da crise civilizatória contemporânea. Em sua obra, o trabalho não aparece como mecanismo de exploração dos recursos naturais, mas como forma de participação no fluxo da vida e de manutenção das relações de reciprocidade entre seres humanos, comunidade e território.
Ao discutir as crises ecológicas, tecnológicas e sociais do presente, trazemos por último o olhar da autora Donna Haraway (2023), que propõe abandonar tanto as promessas de salvação tecnológica quanto as narrativas de colapso inevitável. Em Ficar com o problema: fazer parentes no Chthuluceno, a autora argumenta que a tarefa ética e política de nosso tempo não consiste em escapar dos problemas, mas em aprender a habitá-los coletivamente, construindo relações de interdependência entre humanos e não humanos. Nessa perspectiva, o trabalho deixa de ser compreendido apenas como produção econômica e passa a ser entendido como uma prática de composição de mundos, de cuidado e de criação de vínculos capazes de sustentar a vida em meio às ruínas produzidas pelo capitalismo, pelo extrativismo e pela devastação ambiental.
Assim, uma concepção existencial bioátrica do trabalho, permite deslocá-lo da centralidade da condição humana, de instrumento econômico, para compreendê-lo como experiência de realização de projetos, construção de vínculos, participação comunitária e produção de saúde. O trabalho torna-se, então, uma forma de responder criativamente ao mundo, produzindo não apenas bens e serviços, mas modos de existência mais potentes e sustentáveis.
Sobre as Autoras:
Débora de Mello e Souza é Mestre e Doutora pela PUC-SP, onde atua como Docente e Pesquisadora. Como estudiosa da obra Moreniana, foi pioneira no resgate e reposicionamento dos estudos sobre Bioatria — conceito originalmente criado por Moreno, mas pouco incorporado na produção do Autor. É cofundadora do Instituto Bioatrium e da Lanakaná Princípios Sustentáveis, organizações voltadas à pesquisas, ensino, projetos e práticas em diferentes territórios.
Roberta Gonzalez Caceres é graduada em Comunicação Social, com MBA em Administração pelo Insper e formação executiva em Leading Digital Transformation and Innovation pelo INSEAD. No Instituto Bioatrium, lidera a área de Inovação & Impacto, articulando pesquisas, parcerias, indicadores e projetos em diferentes territórios. Sua prática integra experiência corporativa, pensamento estratégico e produção de saúde, contribuindo para o desenvolvimento de metodologias e iniciativas que conectam organizações, educação, trabalho e cuidado.
Referências
Arendt, H. (2024). A condição humana (13ª ed., R. Raposo, Trad.). Forense Universitária. (Obra original publicada em 1958).
Deleuze, G., & Guattari, F. (2012). Mil platôs: Capitalismo e esquizofrenia (Vols. 1–5). Editora 34.
Haraway, D. J. (2023). Ficar com o problema: Fazer parentes no Chthuluceno (A. L. Braga, Trad.). N-1 Edições. (Obra original publicada em 2016).
Heidegger, M. (2009). Ser e tempo (M. S. C. Schuback, Trad., 4ª ed.). Vozes.
Krenak, A. (2020). A vida não é útil. Companhia das Letras.
Mello e Souza, D. (2025). Premissas de projetos em Bioatria. Instituto Bioatrium. acessível em:https://www.bioatrium.com.br/post/premissas-para-metodologia-de-projetos-em-bioatria
Moreno, J. L. (1992–1994). Quem sobreviverá? Fundamentos da sociometria, psicoterapia de grupo e sociodrama (Vols. 1–3). Dimensão. (Obra original publicada em 1934).



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